Jornal O Bilontra de 1903
Em dezembro de 1903, foi publicada a primeira edição do jornal O Bilontra, em São Sebastião do Paraíso, Sudoeste Mineiro, sob a direção do ilustre jovem Helconides Nicácio. A trajetória desse pequeno grande jornal está no livro Notícia Histórica de São Sebastião do Paraíso, de José de Souza Soares, publicado em 1922. Nesse livro, o autor relaciona os jornais paraisenses publicados, nas duas primeiras décadas do século 20. É com base nessa fonte e em outras extraídas da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional que retornamos ao contexto no qual o referido título ficou na história cultural da cidade.
Anunciado como órgão humorístico e satírico, o significado do título do jornal já sinaliza alguns traços do propósito desse periódico paraisense. Naquela época, bilontra era uma palavra muito utilizada, tanto na linguagem popular como na imprensa. De acordo com um renomado dicionário digital, bilontra é uma palavra com origem no português do século 19, usada para designar uma pessoa astuta, esperta, velhaca que não se deixa enganar pela primeira vista. Na mesma época, houve vários outros jornais no Brasil, com o mesmo título. O Bilontra publicado em Fortaleza, Ceará, por exemplo, era anunciado como órgão desafinado, que respeitava a vida particular dos cidadãos e exigia respeito à sociedade. Era um jornal repleto de frases e ditados populares, sinalizando a necessidade de não acreditar em todas as supostas notícias publicadas pelos grandes jornais.
O redator do Bilontra paraisense era membro de uma conhecida família da qual fazia parte o farmacêutico Hermengaudio Nicácio. Durante anos, esse saudoso conterrâneo manteve sua farmácia na atual Praça Comendador João Alves, no centro da cidade. No início dos anos 1960, do lado oposto da mesma praça, ficava a Farmácia Brigagão. As famílias Nicácio e Brigagão eram clientes da sapataria do meu pai, o poeta José Paes. O ilustre farmacêutico Hermengaudio foi também professor da Escola de Farmácia e Odontologia de São Sebastião do Paraíso, que funcionou no final dos anos 1920 e início da década seguinte. Foi também inspetor de ensino junto ao extinto Curso Normal do Colégio Paula Frassinetti. Sua filha, a professora Zélia Nicácio exerceu o magistério e foi diretora no Grupo Escolar Campos do Amaral, na década de 1970.
Para finalizar, a linguagem da sátira, do humor, da charge e do entretenimento na mídia imprensa ou digital, ontem e hoje, têm em comum a dimensão do lúdico que é inerente às condições afetivas e psicológicas do entendimento humano. Por esse motivo os bilontras e suas diversas variações têm uma longa história que acompanha a trajetória mais assertiva e profissional dos grandes jornais.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 12/08/2026