Luiz Carlos Pais
Tudo vale a pena se a alma não é pequena. (Fernando Pessoa)
Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livro de Visitas Contato Links
Textos
Lembranças da infância
Volto à escola noturna de minha infância. Encontro a mestra de voz severa e às longas jornadas de trabalho que pareciam não ter fim. Mas é ali que reencontro também minha avó, com o calor de seu colo e o encanto de suas histórias. Em sua voz, as matas eram infinitas, os bosques tinham mistérios e os rios conduziam viagens e fantasias.
Revejo meus irmãos, minhas irmãs e meus primos correndo pelo grande quintal. As frutas nutriam nossos dias, sem pressa e o horizonte parecia não ter fim. Depois, a noite devolvia meus pais, cansados do trabalho, trazendo no silêncio dos gestos uma forma discreta de amor. Algumas dessas memórias são delicadas e ainda hoje amparam a alma frágil da criança que permanece em mim. Outras carregam as dores respiradas pelo caminho e as marcas que o tempo não apagou.
Penso na condição humana, na travessia feita em todas as idades. A vida ensina que, além da razão, existem paisagens invisíveis da consciência, onde a memória nasce antes das palavras e permanece além da compreensão.  Talvez seja nesse lugar profundo, para além do ego, que as imagens do passado têm suas nascentes. Elas avançam e recuam como ondas, moldadas pelo vento, trazendo à superfície o que a alma ainda necessita viver.
Hoje, compreendo que esses retornos não são apenas saudade. São exercícios de serenidade. Não pertencem apenas à minha história; revelam algo da experiência humana. É uma respiração mais profunda que protege os dias mais difíceis e trazem a certeza de que ainda vale a pena sonhar com o amanhã.

Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 04/07/2026
Comentários