Memórias da infância
A infância tem um sabor especial e abre um espaço de conforto na memória. Mistura de terra fértil, árvores e noites estreladas a perder de vista. Cheiro de terra molhada, depois da chuva, com o aroma doce do bolo de fubá assado na caçarola em fogão à lenha. E a presença dos amores tão próximos da minha mãe e da minha avó. Quando fecho os olhos e volto o coração para esse tempo, estado de graça e luz, lembro da pequena chácara onde eu, meus irmãos e minhas irmãs viemos ao mundo. Ainda lembro da parteira já idosa que assistiu aos sete partos de minha mãe. Parecia ser um reino infinito aos olhos da criança. Um universo protegido onde o tempo não corria. E minha avó que amava os gatos. Passa o tempo e aquele quintal ainda floresce. Frutas colhidas direto do pé. Manga, jabuticaba, goiaba e os Guavirais que hoje não encontro mais. A única urgência era descobrir a próxima brincadeira. Minha mãe trabalhava de costureira e a magia da infância girava em torno da minha avó. Seu carinho tinha o poder milagroso de curar joelho ralado e o choro infantil. O toque de suas mãos, curadas pelo tempo, por certo, é fonte dos meus bons afetos. Era ela quem orquestrava a magia do quintal. Conhecia plantas comestíveis recolhidas nos campos: beldroega, serralha, cambuquira, ora-pro-nóbis e outras. Ainda ouço o sino da carrocinha do sorveteiro. Sabores de uma tarde eterna que protegeram minhas andanças. Momento mágico. Corríamos ao portão, moedas estendidas na mão e os olhos brilhando para escolher um picolé: limão, groselha, coco e frutas vermelhas. Toda essa aura de encantos infantis, tecida com simplicidade, ficou guardada na memória. O tempo passou, o mundo cresceu, mas hoje quando pesa alguma ansiedade, recorro a essas lembranças para suavizar a alma.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 21/06/2026
Alterado em 25/06/2026