Luiz Carlos Pais
Tudo vale a pena se a alma não é pequena. (Fernando Pessoa)
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Psicologia Analítica e a Física Moderna
O objetivo principal deste ensaio  é destacar a existência de alguns pontos de conexão entre os pressupostos básicos da psicologia analítica de Carl Gustav Jung e as alterações advindas da chamada física moderna que ressignificou a maneira de conceber o conhecimento científico. Nesse sentido, cumpre observar que, no início do século XX, começaram a surgir as primeiras teorias sobre os limites de validade da física clássica e das ciências experimentais, mostrando uma nova maneira de conceber o conhecimento científico em sintonia com o espírito do tempo daquele momento da história. Após um longo período de soberania  do pensamento iluminista, houve um renascimento que resgatou certa precedência da subjetividade para produção coletiva da ciência objetiva.  A psicologia analítica de Carl Gustav Jung começou a se elaborada nesse clima de ruptura parcial com o racionalismo, mas sem aceitara nenhuma prevalência absoluta da visão positivista.

De acordo com o psiquiatra e historiador Henri Ellenberger, no seu livro intitulado “A descoberta do inconsciente”, publicado originalmente na década de 1970, mostrou que a base filosófica da psicologia analítica é o que ele denomina de desdobramento tardio do romantismo, assim como a base teórica da psicanalise de Freud. Porém o caminho filosófico seguido por Freud passou do romantismo tardio ao positivismo, visando preservar o princípio da causalidade como pressuposto fundamental e absoluto.  No caso da psicologia analítica, Jung também deixou a prevalência da base filosófico do romantismo tardio e segue um caminho muito diferente de Freud, a saber aquele sinalizado pela física moderna, que começa emergir na primeira década do século XX.

Segundo o escritor acima mencionado,  não faz sentido fazer comparações entre os desdobramentos da psicanálise e da psicologia analítica porque são disciplinas com matrizes epistemológicas diferentes.  A expressão “psicologia moderna” usada em diversas conferências proferidas por Jung, entre 1933 e 1941, no Instituto Federal Suíço de Tecnologia em Zurique, tem essa conotação de incorporar as diferentes etapas de conceitualização do inconsciente, que não está reduzida ao domínio da visão positivista das ciências. A história do inconsciente se inicia com Leibniz (1646 – 1716), propondo a existência das pequenas percepções ou percepções subliminares, e avança com a produção de uma linhagem de filósofos até o final do século XIX, quando surgem as primeiras dúvidas sobre os limites do mecanicismo e do determinismo.

Mais precisamente, a física moderna envolve teorias criadas no início do século XX para explicar fenômenos que até aquele momento não eram compatíveis com a visão anterior da física clássica cartesiana. De modo mais sintético podemos dizer que as teorias da física clássica foram desenvolvidas para explicar eventos perceptíveis no mundo exterior e material, tais como o movimento de queda livre, velocidade e aceleração de um automóvel, por exemplo.  Por outro lado, a física moderna passa a focalizar corpos de dimensões microscópicas,  extremamente pequenos, tais como as partículas subatômicas, que assumem velocidades altíssimas tal como a velocidade da luz. A mecânica quântica, energia nuclear e a teoria da relatividade são teorias que nascem nesse quadro inicial da física moderna, que redefinem as relações entre matéria e energia.

É com base nessa redefinição dos rumos da ciência do século XX que Jung se expressa nos seguintes termos: “As descobertas da física moderna produziram uma mudança significativa em nossa imagem científica do mundo, por haverem abalado a validade das leis naturais, tornando-as relativas.” O conceito de sincronicidade desenvolvido para servir como um dos alicerces da psicologia analítica preenche uma lacuna existe no triângulo de sustentação da física clássica, formado pelos conceitos de Causalidade, Espaço e Tempo. O princípio da sincronicidade funciona como o contraponto do princípio da causalidade, mostrando que além dos fenômenos explicáveis com o princípio da relação de causa e efeito, existem uma extensa família de fenômenos psíquicos caracterizados  essencialmente por coincidência e significação diferenciada. Por exemplo, quando ocorre um encontro não casual, ou seja, imprevisto e aleatório e a partir desse encontro as pessoas vivenciam mudanças que grande significação em suas vidas. Fenômenos dessa natureza não podem ser explicados somente com base da lógica racional. Há fatores que certamente transcendem à realidade imediata e podem estar associados à inspiração divina ou espiritual.  

Um dos recursos para explicar a passagem para a psicologia moderna consiste em mostrar que as leis naturais são verdades estatísticas, pois as ciências experimentais trabalham com fenômenos que podem ser observados regularmente, que têm alguma possibilidade estatística associada. Mas essa esse pensamento racional não é suficiente para explicar os fenômenos da psique humana, razão pela qual a psicologia analítica está baseada em dimensões infinitésimas ou subliminares, adjetivo usado desde o final do século XIX para qualificar fenômenos psíquicos que não poderiam ser explicados com base nos métodos das ciências positivas.

Quando se trabalha no campo científico com quantidades extremamente pequenas e com os níveis infinitésimos da energia tal como no caso da energia psíquica a predição de fenômenos torna-se incerta e incompatível com a visão de prevalência do materialismo sobre a espiritualidade. A psicologia analítica é uma abordagem que considera a dimensão da espiritualidade porque as ciências numéricas e estatísticas não se aplicam nesse caso. Em síntese, nas bases psicologia analítica prevalece o pressuposto de que há limitações para aplicar o princípio da causalidade absoluta para explicar certos fenômenos relacionados à psicodinâmica do inconsciente. Esse tema complexo é desenvolvido particularmente na obra intitulada Sincronicidade de Carl Gustav Jung, publicada originalmente no início da década de 1950, e hoje incorporada como volume 8/3 das suas Obras Completas. Por mais árido que seja esse assunto, faz-se necessário persistir no estudo de sua pertinência de aplicação nas práticas atuais da psicologia analítica.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 16/02/2026
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