A mulher que amava os gatos
A mulher que amava os gatos é uma lembrança distante de minha infância. Uma idosa curvada pelos anos que caminhava lentamente. Usava vestidos longos e pretos, pano branco nos cabelos e conversava baixinho com a sua própria sombra. Na solidão dos seus dias, a história dessa senhora impactou a consciência de meus conterrâneos. Construíra seu barraco coberto com folhas de palmeira, com paredes de latas, ao lado de uma trilha longe das luzes da cidade. Mas de todos os símbolos da sua vida tão modesta foram os vários gatos que ela criava que ficaram no imaginário coletivo. Uma dezena deles estavam no entorno do barraco, sobre as grandes pedras que protegiam o terreno.
O senso popular dizia que essa senhora protetora dos gatos era neta de escravos africanos que plantaram os primeiros cafezais da região. Parte do senso comum dizia que ela era benzedeira, com poderes para interceder por quem lhe pedisse uma benção. Outros diziam que ela era uma bruxa encantadora dos gatos e através deles tinha o poder de interceder por pessoas ou almas que sofressem alguma dor. Hoje, compreendo que essa crença de associar bruxas aos gatos tem raízes medievais no folclore europeu. Não é de hoje que preconceitos e estigmas segregam pessoas e gatos, tal como a tradição europeia de domesticar somente os gatos coloridos ou malhados.
Os gatos pretos eram discriminados naquele tempo, quando poderia ser até mesmo sacrificados em rituais ancestrais. Hoje, ainda são rejeitados nas modernas feiras digitais de adoção de pets, pois as pessoas preferem gatinhos brancos e de olhos claros. Durante o período de caça às bruxas, perseguição religiosa dos tempos das cruzadas, os felinos negros foram também perseguidos. Mas a amiga dos gatos da minha infância e suas sábias raízes africanas não acreditava na crença importada do velho continente. Mas os gatos sempre foram seres da natureza que integram todas as forças do universo.
Os felinos pretos e pobres de minha infância eram alimentados com pelancas, peles e sobras doadas pelos açougueiros. Do lado externo do barraco, havia um fogão de pedra acesso com lenha recolhida nos buracões da cidade. Mas o amor aos gatos da senhora solitária talvez não fosse um caso isolado. Minha avó de ascendência indígena também adorava os gatos e tinha com eles também uma relação mística. Cuidava deles com carinho e com gestos serenos que ficaram em minha memória. Talvez a vida fosse mais simples ou talvez mais complexa naqueles tempos. Caminhar na solidão dos dias sem chorar a sorte, abrir o seu caminho e persistir na busca do que pode aquecer a alma. Assim talvez podemos aprender a separar o joio do trigo no caldeirão de culturas e crenças herdadas do passado e que ainda estão no inconsciente coletivo.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 01/02/2026