Luiz Carlos Pais
Tudo vale a pena se a alma não é pequena. (Fernando Pessoa)
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Cosmovisão na psicologia analítica
A palavra cosmovisão é usada para designar um sistema coerente de crenças e ideias que permite uma visão geral de mundo. Um dos exemplos de cosmovisão religiosa é o cristianismo. Porém, existem muitas outras formas de apropriação da cosmovisão religiosa, monoteístas, politeístas, incluindo aquelas cultivadas por tradições e culturas excluídos da divisão sectária entre oriente e ocidente. Mas a definição apresentada na primeira linha é apenas uma possível porta de entrada para uma reflexão necessariamente mais ampla, cuja complexidade não cabe em palavras ou frases. O mais importante é que a pessoa interessada no assunto deve ter uma chave de leitura inicial para esse tipo de reflexão, afinal as portas não estão sempre abertas para iniciar essa vivência de estudo.

Antes de tentar falar alguma coisa sobre cosmovisão no domínio da psicologia analítica de Carl Gustav Jung, é conveniente retornar a um dicionário da língua portuguesa de ampla circulação para se aproximar da palavra. Esse movimento é necessário para entender a conceitualização que ocorre no quadro de referência mais amplo das ideais psicológicas. Em um tal dicionário é possível encontrar a seguinte definição: “Cosmovisão é um sistema pessoal de ideias e sentimentos acerca do universo, uma concepção de mundo.” À primeira vista, podemos até estranhar o adjetivo “pessoal” atribuído do sistema de ideias e sentimentos sobre as principais forças do universo.

Assim, em se tratando do cristianismo, por exemplo, podemos dizer que existem tantas cosmovisões cristãs no mundo quanto forem os cristãos? O raciocínio é sutil porque o singular está sempre associado ao plural, o nível pessoal deverá ser sempre articulado ao coletivo, subjetividade e objetividade são polos do entendimento humano. Sendo um sistema pessoal, cada indivíduo cristão tema o sua própria concepção da cosmovisão cristã. A convicção pessoal poderá não ser exatamente a mesma daquela prevalecente na dimensão coletiva do sistema mais amplo. Desse modo, um exercício necessário para conduzir esse estudo consiste em sempre que possível articular a dimensão pessoal e coletiva, sempre haverá o desafio do entendimento cognitivo de cada pessoa que se dispõe a estudar o assunto.

Um segundo momento de reflexão sobre o significado da cosmovisão pode ser a busca em um dicionário de termos e noções utilizados na psicologia analítica. Uma das opções é o Dicionário Junguiano, dirigido pelo analista italiano Paolo Francesco Pieri, publicado no Brasil pela Vozes em 2022. Ao fazer essa busca, constatamos que essa referência apresenta um número reduzido de registros sobre o tema. Encontramos apenas seis referências ao termo, ao passo que para outros termos usuais da psicologia analítica, tais como alma, espírito ou arquétipo, existem centenas de ocorrência. Mesmo eduzidas numericamente, são referências específicas e que dizem respeito às considerações feitas por Jung. Assim, evidencia-se que a discussão passa a ser menos nebulosa e sem a intenção de fazer generalizações apressadas. Somos levados assim a indagar por que Jung recusou admitir que a psicologia analítica fosse uma cosmovisão?

No referido Dicionário Junguiano, a primeira referência ao significado atribuído ao termo cosmovisão está correlacionado ao verbete arquétipo. Uma chave didática relevante para começar a entender a conceitualização na psicologia analítica. Assim, cosmovisão é umas noção que passa a ter uma relação com os arquétipos em nível epistemológico e não religioso. Por outro lado, os arquétipos são padrões de forças naturais, envolvendo ideais simples ou complexos, que foram apropriados por representações coletivas culturais como modelos para orientar ideias e ações diante de um tema importante para a humanidade. Nesse caso, a cosmovisão é uma porta inicial para aprofundar o conceito de arquétipo que assumirá um significado preciso na psicologia analítica.

Por mais difícil que seja tratar dessas nuances conceituais, articulando o sentido pessoal e significado coletivo, estudar a cosmovisão primordial é um exercício necessário para ampliar o diálogo interno ao campo de conhecimento. Jung sinaliza que o conceito de arquétipo, essencial para descrever o inconsciente coletivo, é uma ressignificação da cosmovisão primordial que circulou por diversas culturas ancestrais e ainda está presente na atual sociedade das informações digitais. Para ampliação do estudo sobre esse tema, cumpre observar que uma das obras de Jung que faz referências diretas à cosmovisão é O Eu e o Inconsciente, cujo texto original foi publicado em 1928, assim como nos suas anotações autobiográficas em Memórias, Sonhos, Reflexões. De modo cauteloso como é o estilo o ilustre autor, todas as referências à comissão são afirmadas com a observação de que se tratas de sua visão de mundo.

Ao lançar as bases de uma abordagem psicológica, Jung afirma que a psicologia complexa não é uma cosmovisão. Essa parece ter sido uma escolha acertada no sentido de permanecer dentro do campo da psicologia que estava sendo consolidado no início do século XX. Não há como esquecer do  problema histórico da profissionalização dos psicólogos empenhados em manter um diálogo produtivo com outros profissionais da área de saúde mental. E fazer isso sem confundir ciência com opção doutrinária. Nesse processo histórico de construção coletiva da profissão permanece atual o desafio de não avalizar práticas sectárias e ou que concorram para o aumento de nebulosas. Razão pela qual a psicologia analítica é uma abordagem científica e não uma cosmovisão. Porém, na parte profunda do inconsciente coletivo estão as constelações de complexos e os arquétipos e lá talvez esteja o sistema pessoal de conceber o mundo.

Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 27/01/2026
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