Como ser sua melhor versão
Talvez eu seja mais desconfiado do que muitas outras pessoas. Mesmo que não exista um modo certo de medir o índice de desconfiança, tenho alguma razões para sentir assim. Sou mineiro do interior. Terra dominada pelos coroneis do café, onde se cultivava esse sentimento, por vezes, necessário para sobreviver. Assim, ando farejando que existe em torno dessa insistência em "ser a melhor versão de si-mesmo." Durante as décadas em que fui professor de matemática, talvez eu tenha exigido muito mais a melhor versão dos meus alunos do que de mim mesmo. Exigir a melhor versão dos outros talvez seja mostrar certa desconfiança de si-mesmo. Essa reflexão leva ao exercício do autoconhecimento. Esse pode ser uma experiência importante para buscar o crescimento pessoal e o processo de individuação.
Mas esse desafio não é nada evidente. Você pode passar pelo divã do psicanalista, pelo culto religioso ou pelo oráculo do renascimento e mesmo assim correr o risco não encontra consigo mesmo. De repente, a viagem em busca da melhor versão pode não chegar a lugar algum ou descobrir que você não era quem pensava ser. No processo analítico, o primeiro obstáculo a ser superado é a resistência em deixar os seus complexos virem à tona, escutar a voz complexa do inconsciente pessoal ou interpretar a mensagem dos símbolos. Ao final da viagem ao interior você poderá não encontrar a melhor versão, a não ser entender o que significa essa figura desprovida de fundo.
Na psicologia analítica de orientação junguiana não é adequado pensar em termos da melhor versão de si-mesmo, porque essa frase deixa transparecer que é possível chegar a um suposto estágio superior da perfeição. É mais pertinente reconhecer que dentro da nossa psique existem polaridades que funcionam sempre numa dinâmica de integração de partes conflitantes para vivenciar o processo de individuação. Deve-se ter muito cuidado para não entrar num barco furado, porque, além do mais, a melhor versão de si mesmo poderá não ser assim para outras pessoas. No fluxo voraz da atual sociedade das tecnologias digitais de comunicação e informação, de prevalência de uma suposta transparência nas redes sociais, podemos recair no risco da exposição.
O autoconhecimento nos leva a reconhecer nossas limitações e potencialidades, para integrá-las ao próprio ser que somos, com vocação de ser indivíduo . Desse modo, no transcorrer de todas as etapas do desenvolvimento psicológico estamos expostos ao desafio do crescimento pessoal. Apesar de todos os desafios desse processo, a vida é generosa em fornecer inúmeras oportunidades oferecidas diariamente nos sonhos, visões, imagens, símbolos, sintomas, associações de palavras, entre muitos outros materiais, sobre os quais devemos indagar: Qual é o significado dos símbolos que o inconsciente coletivo nos oferece sempre em doses homeopáticas e numa linguagem a ser interpretada pela própria pessoa.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 20/01/2026