Arquétipos e inconsciente coletivo
Os arquétipos e o inconsciente coletivos são conceitos centrais da psicologia analítica de orientação junguiana, que atuam conjuntamente como uma conexão entre as influências universais mais amplas do ser humano e o mundo interno dos complexos e do inconsciente pessoal. Apenas como recurso didático para entender esses quatro conceitos, podemos recorrer à figura geométrica de uma pirâmide de base quadrada. Nos vértices da base dessa pirâmide estariam os arquétipos, o inconsciente coletivo, os complexos e o inconsciente pessoal. O vértice da pirâmide representaria a totalidade do self que funciona como núcleo organizador dos demais conteúdos da psique humana.
O significado mais amplo do conceito de arquétipo diz respeito a um modelo primordial ou protótipo de algum objeto ou das antigas percepções humanas diante de um fenômeno vital. O arquétipo é um modelo primitivo. Mas a utilização desse último termo não tem conotação pejorativa. Primitivo significa primordial, algo que foi criado nos primeiros dias dos mais diversos povos ancestrais. O arquétipo também é universal porque todos os seres humanos, de uma forma ou de outra, já interagiu com muitos deles. Diferentes áreas de conhecimento, tais como biologia, filosofia e psicologia, utilizam esse conceito, com as devidas adaptações em função do seu objeto de estudo.
A psicologia analítica desenvolvida por Carl Gustav Jung atribui uma importância fundamental ao conceito de arquétipo, associado ao conceito correlato de inconsciente coletivo, os quais, conjuntamente, exercem influência nas mais diversas situações da vida. Assim, existem inúmeros modelos arquetípicos que foram preservados através das geração desde o tempo dos nossos ancestrais. Existem os mais diferentes arquétipos e quatro deles são descritos na obra de Jung, intitulada Quatro Arquétipos: Mãe, Renascimento, Espírito e Trickster. Esse último termo faz referência a uma figura mitológica indiana que se diverte provocando, enganando ou assustando as pessoas.
Ao admitir a existência de um inconsciente coletivo como estrutura de conexão com os formas arquetípicas, Jung está afirmando uma hipótese a partir da qual outras noções associadas sustentam uma forma de compreender a dinâmica dos processos psíquicos em sua totalidade. Como acontece com o enunciado de qualquer hipótese, assim com afirmações das noções fundamentais, trata-se de explicitar as bases sobre as quais a abordagem analítica foi construída. Porém, a necessária consistência da teoria exige sucessivos retornos para sempre tentar melhor elucidar a pertinência.
Ao descrever as raízes filosóficas do conceito de inconsciente, Jung faz referência ao trabalho do filósofo alemão Karl Robert Eduard von Hartmann (1842 - 1906), autor da obra Filosofia do Inconsciente, publicada em 1869. Esse autor descreve o inconsciente como um princípio metafísico associado às raízes mais profundas da vontade do indivíduo, assim como estaria associado ao pensamento racional. Entretanto, na visão do referido autor, a fonte principal do inconsciente seria a vontade e que a razão teria menor poder de influência. A composição desses dois processos seria o fundamento de toda a existência pessoal neste mundo.
Outra referência citada por Jung na descrição fenomenológica do inconsciente foi o trabalho do médico fisiologista alemão Carl Gustav Carus (1789 -1869), também considerado naturalista e psicólogo, pioneiro no estudo dos aspectos inconscientes da psique. A respeito da aplicação o conceito de inconsciente em seus estudos de psicologia, Jung observa que embora os filósofos Leibniz, Kant e Schelling já haviam afirmado a existência do lado sombrio da psique, mas foram dos trabalhos de Carus que mais contribuiu nos estudos do inconsciente como base essencial da psique.
As pesquisas psicofísicas dos meados do século XIX acabou sendo uma força avassaladora contra qualquer sinal de influências transcendentes na psicologia e a favor do materialismo e do empirismo positivista. Devido ao espírito dessa época, o inconsciente deixar de aparecer em textos médicos que tratavam de questões psicológicas, o que mudou com o início da formulação da psicanálise por Sigmund Freud. Desse modo, bem antes dos trabalhos de Jung já havia essas referências pioneiras sobre a possível função do inconsciente na psicologia médica, muitas vezes, ainda permeada de fases filosóficas. Uma das mudanças mais significativas na história desses conceitos da psique foi a proposta de Jung sobre a existência de dois níveis do inconsciente. Um deles, o mais superficial, foi chamado de inconsciente pessoal, o outro, de raízes mais profundas e ancestrais, é o inconsciente coletivo, associado aos arquétipos e às formas simbólicas.
Além de investir décadas de esforços para demonstrar a consistência de sua vasta obra, em particular a descrição dos dois níveis de inconsciente, pessoal e coletivo, Jung ressignificou a concepção anterior até então prevalecente na psicanálise de que o inconsciente era um repositório de resquícios de traumas, conteúdos esquecidos, recalques e fantasias psicossexuais. Diferentemente, na psicologia analítica o inconsciente pessoal e coletivo é concebido como reunião de todos os conteúdos psíquicos, os quais podem ter tendência negativas, mas há também conteúdos virtuais para impulsionar o crescimento pessoal e o processo de individuação. A rigor, Jung reconhece que Freud havia também ter “chegado a discernir as formas de pensamento arcaico mitológicas do inconsciente.”
A camada mais profunda que Jung chamou de inconsciente coletivo recebeu essa qualificação pelo fato de ter natureza universal e inata que tem relações com a experiência de todos os nossos ancestrais nos temas mais relevantes da vida, que são os arquétipos: maternidade, paternidade, heroísmo, espirito, renascimento, entre muitos outros, e até mesmo a traquinagem que é representada pelo arquétipo do Trickster, tema descrito em detalhes em um dos capítulos da obra Quatro Arquétipos de Jung, publicada em 2022 pela Vozes. Com alguma ressalva, o inconsciente coletivo é o mesmo em todos os indivíduos, em função da história filogenética das ações e reações dos ancestrais da cultura considerada.
Toda essa temática parece ser muito abstrata, mas por processos experimentais dos métodos de associação de palavras, imaginação ativa e analise dos sonhos, a estratégia para acessar os conteúdos do inconsciente passa pela expressão de sonhos, imagens, visões, sintomas e respostas relatadas pela consciência. Foi através desses métodos que a equipe de pesquisadores orientada pelo professor Carl Gustav Jung, assistente da clínica psiquiátrica da Universidade de Zurique, coletou vasta documentação com dados experimentais cuja análise estatística e qualitativa permitiu afirmar a existência do inconsciente coletivo e suas estreitas conexões psíquicas com os arquétipos.
A propósito das raízes mais distantes do conceito de arquétipo, Jung afirma na sua obra Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, que o termo já estava na obra do filósofo judeu e helenista Fílon de Alexandria que viveu nas primeiras décadas da Era Cristã, promovendo o sincretismo como síntese dos clássicos gregos, principalmente Platão e os textos sagrados de Moisés. As ideias do bispo e teólogo Irineu de Lion (130 – 202) também são destacadas por Jung a respeito à aplicação dos arquétipos nas bases do cristianismo. Essas referências antigas que falam dos arquétipos foram então articuladas para fundamentar do inconscientes coletivo e seus conteúdos arcaicos ou primordiais, base dos símbolos universais que existem desde os mais remotos tempos.
Na continuidade dos estudos das fontes acima mencionadas, raízes filosóficas, médicas e teológicas do conceito de arquétipo, Jung busca um embasamento teórico no campo das raízes culturais. Nesse sentido a referência principal são das obras do antropólogo e filósofo francês Lucien Lévy-Bruhl (1857 - 1939). Suas pesquisas permitiram uma visão bem mais ampla das bases culturais da experiência mística e dos símbolos utilizados pelos povos antigos. De modo mais enfático, Jung menciona a importância do conceito de representações coletivas, formulado por Lévy-Bruhl, que lhe permitiu entender a importância das figuras simbólicas nas culturas mais primitivas. Ficou mais explícito que ritos tribais primitivos, saberes ancestrais, imagens simbólicas tratavam dos arquétipos mais básicos da vida humana, cobrindo das relações sociais as mais diversas e com introjeção no mundo interior da psique humana.
Jung explica que ocorre uma transformação dos conteúdos do inconsciente em material trabalhado pelo consciente, quando as chamadas imagens arquetípicas, que são as representações coletivas simbolizadas na consciência pessoal. Em outros termos, conteúdos oriundos do inconsciente coletivo são transformados em conteúdos incorporados nos conhecimentos transmitidos de geração para geração através dos séculos e milênios.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 17/01/2026
Alterado em 17/01/2026