Psicologia dos fenômenos chamados ocultos
Esta resenha descreve alguns aspectos contidos na tese acadêmica intitulada “Sobre a psicologia e patologia dos fenômenos chamados ocultos” foi defendida pelo psiquiatra suíço Carl Gustav Jung, em 1902, na Universidade de Zurique. Em termos de referências, o texto integral dessa tese está inserido como parte do volume 1 das Obras Completas, publicada pela Editora Vozes. Naquele momento, ele estava iniciando sua longa carreira de seis décadas de produção científica que constitui as bases iniciai de desenvolvimento da psicologia analítica. Retornar ao objeto focalizado neste trabalho permite compreender as primeiras raízes históricas da psicologia analítica que postula uma relação profunda e complexa com os ditos fenômenos ocultos. A questão tratada pelo jovem Jung, na plenitude dos seus 27 anos de idade, despertou atenção de muitas pessoas tanto no âmbito universitário da psiquiatria, psicologia e psicanálise. Essas duas últimas disciplinas estavam ainda firmando suas bases por caminhos diferentes. Dois anos antes, Freud havia publicado sua famosa obra Interpretação dos Sonhos que exerceria uma influência considerável na psicanálise do início do século XX. Em 1907, Jung conheceu pessoalmente Freud e a amizade entre eles duraria apenas seis anos. O rompimento ocorreu em 1913 e resultou de divergências na conceitualização do inconsciente. Jung considerava a existência de dois níveis interrelacionados: inconsciente pessoal e inconsciente coletivo. Por outro lado, o pai da psicanálise não admitia o nível coletivo. Além dessa diferença, a análise dos sonhos realizada por Jung também era bem diferente do modo valorizado por Freud.
Quando Jung defendeu sua tese, estava em franca expansão a vertente teórica iniciada por Wilhelm Wundt, com a proposição de uma psicologia experimental, baseada nos princípios das ciências positivas e tratando apenas dos fenômenos psicológicos que pudessem ser mensurados e matematizados como exigia aquela perspectiva do conhecimento científico do final do século XIX. Na vertente então concebida como científica não havia espaço para estudar os chamados fenômenos ocultos por uma questão de coerência com a impossibilidade de mensurar e matematizar tais eventos que estavam além da consciência. Nessa linha persistia a psicologia científica positivista que se afastava das abordagens fenomenológicas, assim como da psicanálise freudiana, porque não havia ainda compreensão de como avaliar.
Tema principal de um dos volumes das Obras Completas do Jung, o conceito de sincronicidade é um recurso epistemológico desenvolvido pelo pai da psicologia analítica para estabelecer uma relação plausível entre o mundo psíquico, incluindo as polaridades formadas por conteúdos conscientes e inconscientes, com o mundo da realidade mais externa e perceptível. Entretando, tendo em vista a complexidade do assunto, cumpre observar que esse texto foi originalmente publicado no ano de 1952, quando Jung estava na maturidade septuagenária, iniciando a última década de sua vida longeva. Desde o início de sua carreira ele havia entendido as limitações do princípio da causalidade que predomina em grande parte das abordagens psicológicas. Essa foi a visão predominante na psicanálise freudiana das primeiras décadas do século XX, que consiste em persistir na busca das causas subjacentes ao sofrimento humano, recorrendo aos supostos traumas, recalques e desejos da infância. Ao conceituar a sincronicidade, Jung rompeu com a prevalência absoluta do princípio da causalidade, que consiste em acreditar que tudo pode ser explicado por uma relação de causa e efeito. O caminho escolhido por Jung foi outro, desde o início da sua obra, porém foi necessário passar meio século até que ele conseguisse formular esse conceito que consiste em reconhecer a existência de coincidências significativas na vida de uma pessoa que não podem ser explicada pelo princípio da causalidade.
Essa alteração foi uma ressignificação da visão científica que estava em curso no início do século XX, com destaque para a teoria da relatividade postulada por Albert Einstein, assim como da física quântica ou não mecanicista. Jung passa a se interessar por muitíssimas históricas narradas por seus clientes de coincidências significativas que não podem ser explicadas com a lógica da relação entre causa e efeito, mas sim pelo que ele chamou de princípio da sincronicidade, um evento vivenciado em um determinado momento da vida está relacionado a um outro evento atualizado no mesmo momento e de grande significado para a pessoa. É um momento cujo significado transcende a nossa racionalidade e faz acender um luz de compreensão quanto a importância de um símbolo arquetípico que é significado na vida pessoa. Nesse caso, o conteúdo arquetípico do inconsciente é integrado ao conteúdo da correspondente imagem primordial que está no inconsciente pessoal.
Para finalizar, é preciso reafirmar que apesar do seu profundo respeito diante de fenômenos considerados ocultos, Jung sempre alertou sobre o risco da tentação de recair na vertente obscurantista dos falsos conhecimentos que rondam não somente as ciências, assim como entorno de religiões que perdem suas referências ancestrais de religação com o sagrado. Antes de tudo, a psicologia analítica de orientação junguiana não avaliza a prevalência de nenhum outro tipo de conhecimento que possa contribuir no entendimento do sagrado e do que transcende a restrita área da consciência do ego. Nesse sentido, essa abordagem da psicologia contemporânea postula a importância da dimensão simbólica dos arquétipos que são estruturas universais e com significado não apreensível somente com a nossa racionalidade. Os símbolos que encontramos nos sonhos, visões, coincidências, imagens, memórias, mitos e sintomas devem ser analisados em função da realidade na qual a pessoa está inserida, desvelando o sentido desses conteúdos para o inconsciente pessoal e suas relações primordiais com as referências que pertencem ao inconsciente coletivo. O objetivo principal da análise junguiana consiste em estudar e decifrar o significado simbólico e assim vivenciar o processo de individuação.
Esse exercício existencial e estritamente pessoal consiste em reencontrar quem sempre fomos como seres não divididos. Esse ousado movimento psicológico analítica não deve ser reduzido ao rito da adoração ou contemplação das antigas religiões. Ao invés de adorar os símbolos, trata-se de integrar as polarizadas jacentes na totalidade da psique. Imbuído do espírito inovador das ciências do início do século XX, Jung pesquisou os chamados fenômenos ocultos não como objeto da sua psicologia, mas como recursos ou instrumentos para embasar a descrição cuidadosa das experiências que pessoas que ele atendia em seu consultório. A precedência dessa postura descritiva de casos particulares, antes de ensaiar qualquer generalização, é um dos pressupostos da fenomenologia como método de investigação científica.
Desde o final do século XIX, estava em curso trabalhos de pesquisa sobre as chamadas psicologias subliminais, reunindo estudos de fenômenos e possíveis efeitos de estímulos com intensidade abaixo da capacidade de percepção do ser humano. Mas por serem fenômenos que escapavam ao limite da capacidade humana, muitos deles, eram chamados fenômenos ocultos ou transcendentes no sentido de estarem fora do espectro da consciência da grande maioria das pessoas. Mesmo que uma luz ou som, por exemplo, foi de estímulo abaixo da capacidade de percepção humana, por transdução das energias envolvidas, podem influir pensamentos, memórias ou emoções de maneira ainda não conhecida pelas ciências psicológicas.
Essa tese foi realização com base em observação de casos psiquiátricos reais sobre os quais pairavam dúvidas sobre possíveis manifestações de fenômenos para os quais até então não se tinha explicações científicas.
A justificativa de realização deste trabalho era existência de pouquíssimas fontes de referências naquele momento sobre uma temática que não recebia quase nenhuma atenção dos psiquiatras ou psicólogos da época. Jung parte da hipótese de que muitos desses casos considerados fenômenos ocultos envolvia estados alterados da consciência sobre os quais não havia quase nenhum conhecimento por parte dos médicos. Por outro lado, predominava desacordos, preconceitos e até distanciamento por convicções religiosas. Mas, a proposta da referida tese foi uma atitude de abertura intelectiva para entender grande número de casos concernentes ao que era genericamente chamados de fenômenos ocultos. Por outro lado, era então comum expressar a visão reducionista da psiquiatra daquele tempo através de ideias vagas quase pessoais então existentes na literatura da áreas. Essa visão extremamente superficial estava condida em expressões tais como: “narcolepsia, letargia, automatismo ambulatório, amnésia periódica, dupla consciência, sonambulismo, fantasias patológicas, mentira patológica etc.”, conforme menciona Jung no desenvolvimento de seu trabalho acadêmico. De acordo com as teorias psiquiátricas da época, tais fenômenos ditos ocultos era associados ou atribuídos a casos de epilepsia, histeria, esgotamento nervoso e à neurastenia. Essa última condição tinha os sintomas de fraqueza, dores no corpo, mal-estar ou fadiga depressiva. Muitas vezes, as crises ou comorbidades desses casos podiam resultar em comportamentos para os quais não havia explicação plausível e muitas vezes eram atribuídos aos supostos fenômenos ocultos. Por um lado, Jung acreditava que era muito difícil ou mesmo impossível separar os inúmeros estados de alteração da consciência encontrados na clínica psiquiátrica, que eram simplesmente desprezados pela pesquisa independente e não compromissada com pensamento oficial da época. Foi assim que ele levantou a hipótese de que além do campo da enfermidade, os fenômenos considerados ocultos poderiam estar associados a outras influências ainda não compreensíveis pela ciência da época.
Luiz Carlos Pais
Enviado por Luiz Carlos Pais em 11/01/2026